Materiais — madeiras, adesivos, acabamentos

Madeiras nativas e exóticas, cola certa pra cada junta, óleos e ceras que respeitam o material. O vocabulário químico-orgânico do ofício.

Material primeiro, técnica depois

Nakashima dizia que cada flitch tem um único uso ideal, e que o trabalho do marceneiro é descobrir qual. Conhecer o material — sua dureza, fibra, movimento, comportamento sob lâmina e sob acabamento — é pré-requisito de qualquer técnica. Este compêndio é mapa para escolha; cada espécie e cada produto merece post próprio depois.

Madeiras nativas brasileiras

O Brasil tem variedade absurda. Foco em espécies hoje legais, manejáveis e com fluxo de mercado estável (selo Inmetro / DOF).

| Espécie | Dureza Janka | Características | Uso típico | |---|---|---|---| | Ipê | 3680 | Densíssima, oleosa, escura | Tampos de bancada, deck, mesa pesada | | Jatobá | 2820 | Vermelho-amarronzado, brilho natural | Mesa, gabinete, piso | | Peroba-rosa | 1840 | Rosada, fibra suave, fácil de trabalhar | Móvel histórico, peças decorativas | | Imbuia | 950 | Marrom-escuro, figura exuberante | Móvel fino (raro, mercado restrito) | | Sucupira | 2140 | Marrom-violácea, listrada | Mesa, banco rústico-fino | | Cedro-rosa | 670 | Aromática, leve, trabalhável | Caixa, gaveta interna, instrumento | | Louro-preto | 1180 | Escura, fibra entrelaçada | Tornearia, esculpido | | Freijó | 990 | Amarelo-oliva, neutra | Móvel claro, peça calma | | Pequiá | 2680 | Densíssima, marrom | Bancada, peça pesada | | Garapeira | 1690 | Amarelo-mel | Estrutura, mesa, banco |

Notas: a CITES e o Ibama controlam manejo. Peça nota fiscal com DOF (Documento de Origem Florestal) sempre. Madeira sem DOF não vale o desconto.

Madeiras importadas / exóticas

Quando o projeto pede coloração ou textura que o nativo não dá:

  • Nogueira-americana (American Black Walnut, Juglans nigra) — Janka 1010, marrom-chocolate, fibra reta, trabalhabilidade ótima. Material de eleição da escola Nakashima.
  • Cerejeira (Black Cherry) — Janka 950, rosado escurece pra mahogany com UV. Esculpe lindo. Krenov adorava.
  • Bordo / Maple — Janka 1450 (hard maple), branco-creme, fibra densa. Padrão norte-americano pra mesa, bancada de oficina.
  • Carvalho (White Oak) — Janka 1360, quartersawn revela "ray fleck" típico de Arts & Crafts (Stickley).
  • Mogno (Khaya, Swietenia) — Janka 800-1070. Khaya africano hoje é o que circula; Swietenia honduriense praticamente extinta da legalidade.
  • Bubinga — Janka 2410, vermelho-roxo, listrada. CITES-restrito desde 2017.
  • Wenge — Janka 1930, preta com veios bege. Fibras fendilháveis (cuidado em encaixe).
  • Tília (Basswood) — Janka 410, branca, fibra uniforme. Padrão pra escultura/entalhe.

Slabs e madeira "com vida"

A peça de assinatura da escola Nakashima:

  • Live edge (borda viva) — corte com casca, sem aparar. Preserva a forma original da árvore.
  • Crotch (forquilha) — figura espelhada (flame figure) gerada pelo encontro de dois galhos.
  • Burl (cancro) — nódulo, figura caótica e densa. Frequente em chapéus e taças torneadas.
  • Spalted — madeira atacada por fungo controlado, gera linhas pretas (zone lines). Frágil, mas espetacular.

Estabilização: slabs grandes movem muito. Técnicas:

  • Butterfly inlay (Nakashima) — encaixe em forma de borboleta atravessando a racha. Trava o movimento e vira ornamento.
  • Bowtie / Dutchman — variação. Forma de gravata-borboleta.
  • Epóxi de slabs (river table) — preencher rachas com epóxi de penetração lenta (West System 105+207, Total Boat). Estética divisiva — alguns marceneiros consideram cosmética demais, vs. butterfly que é joia funcional.

Adesivos

Cada cola resolve um problema. Não há cola universal.

  • PVA / Titebond — padrão pra encaixe e laminação. Original (interno), II (resistente à umidade), III (à prova d'água). Tempo de abertura: 5-10 min. Limpeza com água antes de curar.
  • Epóxi — duas partes (resina + endurecedor). Preenche, não exige aperto perfeito. Resistência alta, tempo de cura 12-24h. West System (105+205/206), Total Boat. Pra slabs, river tables, reparos estruturais.
  • CA glue (super bonder / cianoacrilato) — instantânea, frágil, ótima pra preencher pequenos defeitos antes de lixar, ou fixação temporária de gabarito.
  • Hide glue (cola de couro/animal) — milenar. Reversível com calor + umidade — daí ser padrão em restauro e luteria. Líquida (Old Brown) ou hot (granulado dissolvido em banho-maria).
  • Polyurethane (Gorilla Glue) — expande, preenche, à prova d'água. Limpeza chata; espuma manchando madeira. Uso pontual.

Acabamentos

Cobertos em Técnicas com mais detalhe. Resumo dos produtos correntes:

  • Óleo de tungue puro (Real Milk Paint, The Real Milk Paint Co.) — penetra fundo, polimeriza, sem solvente. Várias camadas (3-5), 24h entre cada.
  • Óleo de linhaça cozido (BLO) — clássico, barato, fácil. Cuidado: panos com BLO combustíveis por reação exotérmica — sempre secar abertos ou submersos em água.
  • Osmo Polyx-Oil — óleo+cera europeu, padrão pra mesa de jantar moderna. Acabamento fosco-acetinado, manutenção fácil.
  • Rubio Monocoat — uma camada, hardware oils, sem refazer. Caro; ótimo pra peça final.
  • Shellac (gomalaca) — resina natural, dissolvida em álcool. Pode ser comprada em escamas (raw) ou pronta (Zinsser SealCoat). Reverível com álcool.
  • Cera de carnaúba / abelha — finalização sobre óleo. Brilho macio, refaz manutenção anual.

Madeira engenheirada

Quando faz sentido:

  • MDF, plywood (compensado), MDP — gabarito, jig, estrutura interna escondida. Nunca como peça vista em marcenaria fina.
  • Compensado naval / marítimo — base de mesa segmentada, gaveta interna estável. Excelente onde estabilidade dimensional > pureza estética.
  • Bambu laminado — alternativa sustentável, dureza alta, fibra incomum. Útil pra peças contemporâneas com pegada eco.

Onde comprar (BR)

Esta seção fica detalhada em Lojas. Por ora, regra de ouro: antes de comprar 50 metros de uma madeira, compre 1 metro e leve pra oficina. Como ela trabalha sob plaina e sob acabamento é o que decide se vale o pedido grande.